Teologia representa um dos empreendimentos humanos costumeiramente qualificados de “científicos”, que tem por finalidade perceber um objeto (respectivamente uma área definida) como fenômeno, compreendê-lo em seu sentido e interpretá-lo quanto ao alcance de sua existência – e isso, dentro do caminho indicado pelo próprio objeto em questão. O termo “teologia” parece indicar que em seu âmbito, por ser ciência específica (e muito específica), se trate de perceber, de compreender e de interpretar a “Deus”.
Mas ao termo “Deus” poderão ser atribuídos os mais variados sentidos, de forma que necessariamente também deverá haver uma multiplicidade de teologias. Mas, há uma coisa comum entre as mais variadas teologias, e este fato lança uma luz bastante reveladora sobre os deuses em questão: é que cada uma delas se considera e se proclama a se mesma sendo a única correta ou ao menos como sendo a melhor, por ser a mais correta de todas. A melhor teologia, a única teologia correta do Deus sublime, único, verdadeiro e real é aquela que procura comprovar a se mesma pela “demonstração do espírito e do poder”.
A teologia à qual queremos introduzir é a teologia evangélica. O adjetivo aponta para o novo testamento e simultaneamente para a Reforma do séc. XVI. A teologia da qual trataremos é a que, a partir de suas origens absconditas, latentes nos documentos das história de Israel, veio à luz, de forma clara e inequívoca, nos escritos dos evangelistas, dos apóstolos e profetas do novo testamento, para ser redescoberta e revivida na Reforma do séc. XVI.
Não queremos o termo evangélico de forma confessionalista – já que evidentemente aponta para a Bíblia – que de alguma maneira está sendo respeitada em todas as confissões. Teologia, por ser “protestante”, ainda não é necessariamente evangélica. E existe teologia evangélica no catolicismo romano e oriental-ortodoxo, como também existe na área das inúmeras variações e mesmo das formas degeneradas, posteriores aos evento reformatório. Teologia evangélica é aquela que intenciona perceber, compreender e tornar manifesto o Deus do evangelho – quer dizer, o Deus que se manifesta no evangelho, que por si mesmo fala aos homens, que age dentro deles e entre eles da maneira por Ele mesmo indicada. Onde se realizar o evento deste Deus se tornar objeto da ciência do homem e como tal, origem e norma da mesma – é aí que existe teologia evangélica.
A teologia evangélica raciocina com base em três premissas secundárias, que são: dialética insolúvel do evento da existência humana, existência que vê confrontada com a auto-revelação de Deus no evangelho; a fé de pessoas humanas que receberam o Dom e a vontade de reconhecerem e de confessarem a auto-revelação de Deus como tendo acontecido a favor deles; e na razão, isto é, na capacidade de percepção, de conceituação e de expressão de todos os homens, inclusive os crentes, fato este que os capacita tecnicamente a participarem, de forma ativa, do esforço teológico-cognitivo, realizado no confronto com Deus que se auto-revela no evangelho.
Teologia não ignora que o Deus do evangelho se acha voltado para a existência humana. A prioridade absoluta da teologia evangélica é Deus mesmo. Teologia evangélica sabe esperar, para verificar como a existência, a fé e a capacidade intelectual do homem, como seu ser e sua auto-compreensão, em confronto com o Deus do evangelho, superior a existência humana, venha revelar-se. Ela em toda a sua modéstia é ciência livre, isto é, é ciência que deixa seu assunto agir livremente, de forma que vai sendo liberada continuamente por seu próprio objeto.
O assunto da teologia evangélica é Deus – Deus , na história de suas ações. Nela é que Ele se manifesta a si mesmo. Mas nesta história Ele também é o que é. Nela Ele tem e prova tanto sua existência como sua essência.
O Deus do evangelho não é nenhum Deus solitário, que bastasse a si mesmo e que fosse recluso em si mesmo: não é nenhum Deus absoluto, isto é, não é um Deus desvinculado de tudo que não seja Ele mesmo. O Deus do evangelho se compadece. Como em si mesmo é o Uno, na unidade de sua vida como Pai, Filho e Espírito Santo – assim, em relação a realidade – dele distinta – Ele é livre, de jure e de facto, de ser Deus – não ao lado do homem, mas igualmente não só acima do homem, mas sim, junto a ele, e, antes de tudo, a favor dele: não só como seu senhor, mas também como seu pai, seu irmão, seu amigo, seu Deus, isto é, o Deus do homem; e isto não em detrimento ou em abandono do seu ser divino, mas antes em confirmação do mesmo.
Portanto, o Deus do evangelho é o Deus que se relaciona com o homem, que tem uma palavra amiga, por ser palavra de graça.
Teologia evangélica, através do seu labor, responde ao gracioso sim de Deus, a sua auto-revelação benigna e amiga ao homem. A teologia evangélica lida com o Deus do homem, mas precisamente lida com o homem, como sendo o homem de Deus.